Pride and Joy

Essa história começa numa manhã de sábado , num dezembro de 1982.

Havia despachado minha recém adquirida DT 180 , pra minha terra natal.

A moto era usada. Adquirida dias antes de um aeroviário cabeludo , no aeroporto de Congonhas , através de um anuncio no jornal.

Lembro-me de ter ido direto , do barracão da transportadora , para um posto de gasolina.

Lembro-me de ter enchido o tanque e de ter me sentido o cara mais feliz do mundo.

Eu tinha 14 anos , uma motocicleta off road e muito pouca coisa pra fazer ou pra pensar. Pelo menos até o final das férias...

Liguei a moto e olhei para o horizonte , em todas as direções , procurando um destino , quase que farejando uma "aventura"

Instantaneamente , fui atraído pelas "voluptuosas" formas da Serra do Jaboticabal.

Reação natural , a qualquer "off roader".

O desejo de ir aonde ninguém vai. Ou , por onde ninguém iria.

Subir a serra foi minha primeira intenção.

O desejo de explorá-la , foi decorrência direta...

Sozinho , numa área desconhecida , procurei um acesso "marginal".

Não queria circular por áreas cercadas , nem dar bandeira perto das sedes das fazendas.

Queria passar despercebido.

Apesar de nativo , não conhecia ninguém por lá.

Não demorou muito pra perceber que , lá em cima , havia uma espécie de aceiro , que se estendia por todo o contorno da parte alta da serra.

Uma faixa de terra limpa , que separava as diferentes culturas , da mata ciliar que cobria a encosta.

O traçado era delimitado pela geografia do terreno e contornava a mata no limite de inclinação para operação dos tratores , caminhões e implementos.

A natureza é criativa e caprichosa.

O resultado desta combinação , deu origem a um circuito de grande extensão , composto por centenas de curvas de todas as topografias e ângulos.

Como uma praia que emoldura toda a extensão do litoral , "separando" o oceano do continente

Como se tudo aquilo , um dia , já tivesse sido mar e , a serra , uma ilha.

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Aquela era uma área "restrita".

Não havia moradias próximas. Não havia intersecções com outras vias de acesso. Não havia criação de nenhum tipo. Não havia um fluxo contínuo de máquinas agrícolas.

Tudo o que se via , era a mata nativa (ou , o que dela resistiu) de um lado e , fruticulturas , do outro.

Em geral , laranja , goiaba , ou manga.

Invariavelmente , atravessadas por dezenas de "curvas de nível" , "bicudas".

Uma , na sequencia da outra....!

Não havia cercas , em função , talvez , da segurança , decorrente da fronteira íngreme e inacessível.

Havia muitos grupos de pequenos animais vivendo por lá.

Famílias de macacos , casais de seriemas , bandos de quatis e lebres solitárias.

Estes , se aproveitavam da fronteira remota e da ausência de movimentação , para assaltar os pomares e correr de volta para a segurança da mata.

Um lugar perfeito para o rolê.

Frutas , sombras , belas paisagens , sequências de saltos e , curvas. Muitas curvas.

Naquela manhã , avançando por aquele caminho desconhecido , jamais poderia imaginar que estava deixando ali no chão as primeiras marcas de cravos , numa faixa de terra que , nos anos subsequentes , serviria de base para a formação de várias gerações de pilotos e entusiastas do motociclismo off road.

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A vocação natural do espaço é tamanha que , mesmo hoje , vinte e oito anos depois , muito pouca coisa mudou.

As múltiplas culturas , deram espaço à cana.

Esta , foi a única mudança significativa naquele sistema.

Todas as outras características que me chamaram a atenção naquela manhã de sábado , continuam lá. Exatamente iguais.

Como se o tempo tivesse parado para o off road , naquele pedaço de chão.

Neste findê , depois de um recesso de muitos anos , atribuído ao fechamento temporário do acesso , decorrente do uso indevido , tive a oportunidade de voltar a fazer aquelas curvas , num sábado , de moto!

O "Circuitinho" , como é chamado , é uma unanimidade.

De treieiros quaisquer , como a gente , a multi campeões nacionais , nunca vi ninguém que não se apaixonasse por aqueles vinte e tantos quilômetros de curvas.

Lá , não há pedras. Não há raízes. Não há inclinações acentuadas.

Tudo o que se vê é uma longa faixa isolada , que serpenteia , entremeio à mata e a lavra.

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Este "campus" , formou uma geração de "pelotos" que , na ausência total de outro objetivo qualquer , só aprendeu a ......... , fazer curvas.

Na maior velocidade alcançável , com o mínimo de visibilidade possível.

Em determinadas ocasiões do ano , principalmente na época das chuvas , todos nós sabemos que as águas que escorrem do planalto , formam erosões que atravessam nossa "pista".

Neste contexto , as médias altas , e a poeira , se encarregam da seleção natural.

Lá em cima , quem não tá andando na frente , tá correndo perigo e , quem tá conseguindo ver alguma coisa , certamente tá escutando a coruja , sentada no para lamas traseiro , pronta pra dar sua bicada , no primeiro sinal de vacilo.

Esta "seleção natural" moldou alguns caras bem rápidos.

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Eu , apesar de uma vida inteira no motociclismo , não posso me orgulhar de títulos ou troféus.

Não tenho nenhum.

Apesar das várias bikes e dos inúmeros quilômetros percorridos , não trago comigo nenhuma marca que me diferencie de um piloto qualquer. Nem poderia , posto que é exatamente isso que sou.

Em contra partida , trago uma enorme sensação de satisfação , toda vez que , lá em cima da serra , vejo um grupo de "racers" , reunidos embaixo de uma árvore.

Ou , toda vez que mais um novato se apresenta.

Ou ainda , quando um dos veteranos nos dá um prazer e , reaparece pra mais uma "session".

Satisfação de ter , involuntária e despretensiosamente , lançado a semente do que viria a se tornar um dos ícones da cultura local.

The sugar cane free ride!

Sábado , tive o prazer de andar junto com dois brothers.

Caras rápidos , talentosos e bem preparados.

Um deles , pioneiro , veterano , o outro , recém chegado do asfalto , dono de habilidade impar.

Sei que os caras não andaram tudo o que sabem.

Eu também não. Apesar de não saber muito mais do que aquilo.

De qualquer forma , fiquei muito satisfeito , pelo simples fato de estar ali. Fazendo o mesmo trajeto , juntos , tantos anos depois.

Ainda tenho o mesmo , absurdo e imensurável prazer de fazer todas aquelas curvas...!!

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O rolê foi duca. As usual....!!!

Porém , mal sabia eu que , nesta data "comemorativa" , estava prestes a experimentar mais uma "lição" daquelas que o tempo reserva , mesmo aos mais experimentados.

Eu sempre gostei de sair pra trilhar pela manhã.

Não necessariamente as 6:00 , mas , num horário que se aproveite melhor a energia de uma noite bem dormida , aliada às temperaturas amenas e à beleza da natureza ao amanhecer.

Mas , nos últimos anos , o grupo ganhou adeptos que trabalham aos sábados pela manhã e , em justa consideração a estes caras , passamos a sair às 14:00.

Dentre as implicações inerentes , este horário traz uma que considero a pior: A temperatura.

Invariavelmente , na casa dos 30 ou 35 graus.

Punk...

Calor e poeira pra ninguém passar vontade.

Saímos e trilhamos por duas horas , praticamente ininterruptas.

O relógio marcava algo como 16:30 quando resolvemos passar à segunda etapa do "tour":

O bar de Jurupema. Suas gélidas ampolas , seus assados , seus fritos.

Porém , as luzes do final da tarde e do início da manhã são as melhores para fotografia , e eu , não poderia desperdiçar aquela oportunidade para registrar nosso playground.

Avisei os caras que daria uma ultima volta , pra tirar algumas fotos.

Fotografias são muito legais , mas , no rolê , enchem o saco.

Para , escolhe o ângulo , desliga a bike , arruma um lugar pra encostá-la , tira o óculos , tira o casco , tira as luvas , acha a maquina , tira a foto , guarda a maquina , põe o casco , põe as luvas , põe o óculos , liga a bike e ....... , tudo outra vez , metros adiante , no próximo spot.

Saí só e , por volta da metade do percurso , o gás da bike acabou.

Constatei e .... , esperei.

Havia bikes de tanque grande no rolê. Alguém chegaria e me arrumaria alguns litros.

Os minutos foram se passando e , nada.

Cerca de meia hora depois , ouvi os motores se distanciando.

Gritei.

Pra que...?

pride and joy

Tenho um passado de relativa "independência" no rolê.

Todos sabem que costumo ir e vir , sozinho , quando me dá vontade.

Este modo de ser é mais um questão de sobrevivência do que uma opção de vida.

Morando numa cidade que não tem trilhas e andando em vários lugares diferentes , sem um grupo fixo , muitas foram as vezes que deixei de andar porque não tinha parceiro.

Um dia , decidi que não iria mais depender de ninguém pra andar de moto no mato.

Dali pra diante , se tenho companhia pra trilhar , ótimo! Se não , bom também!

Esta relativa "autonomia" , é de conhecimento popular e , faz com que ninguém me espere ou se preocupe muito comigo.

Se eu já fui , fui pro bar , ou pra casa.

Se eu não apareci e porque eu não vim. Simples assim.

Diante disso , todos foram embora e eu fiquei sozinho , sem gás , depois de um rolê de um tanque. Acelerado.

Longe da cidade. Num calor dus infernos. Quase sem água.

Estava viajando sozinho e pousando na casa de parentes que também estavam viajando.

Portanto , não haveria ninguém para reclamar meu corpo ou meus pertences... , se eu não retornasse ao cair da noite.

Situação delicada e de alto risco.

Lembro-me que , diante do cenário ameaçador que se formatava , a primeira coisa que me veio à cabeça foi:

"Putz..... , que zica.... , vou desperdiçar minha noite de sábado , solteiro..."

Inconcebível.

Logo vi que a ajuda não chegaria. Certeza.

Assim sendo , fui tratando de me virar sozinho.

Deixei meu casco à vista , bem no meio da trilha.

Caso alguém saísse à minha procura , saberia que eu havia passado por ali , vivo e , com a cabeça ainda presa ao corpo...

Escondi a bike no meio do mato e sai na caminhada até a estrada mais próxima.

É impressionante como , motorizado , as distancias parecem muito menores.

Caminhei.

Caminhei.

Caminhei.

Não sei ao certo quantos quilômetros andei. Mas , de botas , joelheiras , sem almoço , sem água e , naquele calor infernal , tive a impressão de que foram cerca de 782km.

Aquela estrada já é desabitada por excelência.. Na época das chuvas então .... , as erosões acabam por dissuadir os poucos que se atreveriam por lá.

Além do mais , já era fim de tarde.

Conclusão:

Cheguei à estrada , mas , lá não havia ninguém , nem um ponto de ônibus onde pudesse esperar por alguém.

Segui caminhando.

Comecei a me lembrar que meu short de proteção havia perdido o tecido que reveste o neoprene , tão logo as assaduras se transformaram em queimaduras de terceiro grau.

Lembrei-me também que é chegado o momento de fazer um reforma nas joelheiras , tão logo passei a dar os passos sem dobrar os joelhos , em razão da dor , decorrente dos cortes que as cintas estavam fazendo nas minhas pernas.

Tinha a impressão de que o sangue escorria e já fazia poças , dentro das botas.

Talvez , fosse só o suor. Mas àquela altura , parecia sangue de verdade...

Falando em botas , as minhas , apesar de velhas e ultra confortáveis , já davam sinais de que me cobrariam o preço daquela incoerência.

Cobrariam em bolhas. Várias. Caso eu continuasse insistindo naquilo.

Passei então a cantar , e dispensar itens de segurança pelo caminho....: leatt , colete , cotoveleiras , máquina fotográfica , luvas , camel back (vazio)...

Num dado momento , pensei em parar , tirar tudo aquilo e seguir andando só de botas , cuecas e camiseta , apesar do risco eminente de ser atacado e violentado por um grupo de mulheres canígenas , que se vestem com panos de chão e tomam água de enxurrada como a Amy Whinehouse.

Mas , quando tentei abaixar pra soltar os fechos da bota , minha pressão caiu num nível que parecia que alguém tinha apagado a luz do mundo.

Desidratado , respirei , levantei a cabeça , me concentrei e voltei a caminhar.

Sem pensar em mais nada. Nem na noite de solteiro...

Evidentemente , eu não corria risco algum.

Mas , isso não importa.

Tava cansado pra cacete , derretendo que nem mussarela na chapa e louco de vontade de tomar uma cerveja.

pride and joy

Quase três horas depois , cruzei um casal. Um senhor e uma senhora , numa pick up.

Praticamente me joguei na frente do carro e fui falando o nome da minha mãe , do meu avô , da minha mulher , do meu sogro , do prefeito , das ruas que conhecia e , de todo mundo da cidade que eu lembrava o nome. Tinha que estabelecer contato com aquelas pessoas de alguma forma.

A senhora se comoveu e os dois , gentilmente , me levaram até um posto de gasolina.

Poucos paulistanos de nascença , acreditariam nesta possibilidade.

Mas , foi exatamente isto o que aconteceu.

Os caras voltaram um bom pedaço de estrada , só para ajudar um desconhecido. Imundo. Fedido. Fora de si.

Havia um pequeno cãozinho na caçamba que insistia em tentar se jogar da caminhonete em movimento.

Ele tinha suas razões. Meu estado era de fato amedrontador.

Acolhi o pequeno animal como se fosse um filho e tentei acalmá-lo. Ele se fingiu de morto , ou desmaiou.

Mais tarde , já refeito , encontraria o mesmo casal outra vez.

As palavras foram conclusivas:

"Moço , você tava parecendo um marciano perdido no meio da estrada..."

Cheguei em casa descrente do que tinha acontecido.

Liguei pra Nani , pra tranquilizá-la.

Ela nem estava preocupada. Mesmo porque , nem sabia de nada.

Pensando bem , deveria tê-la poupado de mais esta presepada.

Tomei um banho gelado. Duas águas de coco e me joguei na cama.

Fiquei ali por aproximadamente 10 minutos , entre a vida e a morte.

Sim , se eu dormisse , literalmente morreria , até a manhã seguinte.

Ainda pensava na doce vida de solteiro e nas cervejas geladas do bar...

Neste momento , passei a escutar trovões.

Mesmo exausto , pensei: "Não posso deixar meu canhão lá no meio do mato , sozinho..."

E se chove um dilúvio....???

E se a enxurrada carrega a moto barranco abaixo...???

E se eu perco meu canhão num grotão de enxurrada...????

E se por ventura um grupo de delinquentes sai à noite , de lanterna na mão , caçando 450 japonesa no meio do canavial , numa noite escura e tempestuosa...????

Tudo aquilo poderia estar prestes a acontecer de fato.

Pulei da cama , peguei a chave do auto , resgatei um brother no boteco e cai no trecho outra vez!

Felizmente , lá estava ela , exatamente como eu a havia deixado!

Fiquei feliz! Feliz de novo! Ela também!

Voltei pra casa , descarreguei a bike , dei um beijinho nela e fui tomar outro banho.

Enfim , havia chegado o momento tão esperado.

O verdadeiro propósito de todo o homem que viaja sozinho , e não é um astronauta.

Sábado à noite.... Solteiro.... De carro...... Cheiroso , com algum trocado nu bolso , minha calça jeans favorita e alguns CD do bom rock´n´roll no embornal...

A hora era aquela!

Passei no banheiro outra vez , escovei os dentes bem escovados , passei um fio dental , me olhei bem no espelho e ...... , pus pijama!

Opa! Não zoa não.

Pijama novo.... , de listinha...

A Nani que me deu....!

Como diria o insubstituível , inigualável , insuperável , Mr. Stevie Ray Vaughan:

"She´s my sweet my little baby.. She´s my pride and joy..!"

Oh yeah brother....! That´s for sure!

Meu orgulho e meu prazer. É exatamente isso que elas são !!!!!!!

Antes de chapar , ainda dei a ultima olhada pela fresta da janela.

Lá estava ela. Linda , sexy , coberta de barro , encostada na parede.

Love my bike.

Jamais poderia abandoná-la assim... , num canavial escuro qualquer ..... , cheio de curvas e saltos...

Motohead

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